terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Quem mexeu no meu lixo? Folha Equilíbrio

Por que é tão difícil se desapegar de papéis, roupas velhas, eletrodomésticos quebrados...
04.01.2010

Juliana Vines - DE: SP

Não existe vida nem história sem objetos, dizem os antropólogos. Isso explica os museus, as coleções de selo e até a pilha de revistas no canto da estante.

Não explica, porém, como e por que cada vez mais há quem adore (e estoque) bugigangas que, segundo a definição do dicionário, já deveriam estar no lixo.

"Objetos são muito mais simbólicos do que funcionais. Eles têm valor afetivo", diz o antropólogo Everardo Rocha, da PUC-Rio.

"Cada um quer ser curador da própria vida, ter uma coleção imensa de objetos. Muitas pessoas não sabem mais o que é lixo e o que não é."

A antropóloga e pesquisadora da Unicamp Valéria Brandini diz que os objetos carregam escolhas. Por isso é tão difícil jogar fora algo que, para os outros, não passa de quinquilharia. "Livrar-se de uma roupa velha pode significar perder uma parte de você, mesmo sabendo que aquilo pode ser útil para alguém."

Eu ou o Lixo

A princípio, não há nada de errado em acumular coisas. Até que suas coleções sejam tantas que passem a incomodar alguém.

O comerciante Sérgio Valente, 42, não aguentava mais viver junto com as roupinhas de bebê de seus filhos, já adolescentes. Sua esposa, Neide, 41, publicitária, fazia questão de guardar tudo. Tinha pilhas de roupas de todos os tamanhos (para usar se engordasse), utensílios de cozinha velhos e congelados vencidos. "Ela é desorganizada e dizia que não tinha tempo para arrumar. Dei um basta e insisti para contratarmos alguém que ajudasse nisso." Foram 11 dias de trabalho de uma especialista em organização e mais de 60 sacos de lixo de cem litros. E muitas coisas ainda ficaram.

De acordo com a psiquiatra Ana Gabriela Hounie, da Associação Brasileira de Psiquiatria, o colecionismo (mania de guardar objetos), quando em excesso, pode ser sintoma de transtorno obsessivo-compulsivo ou estar associado a depressão. Essas pessoas guardam dúzias de garrafas PET, escovas ou pilhas de enlatados. "Sempre há uma justificativa. Elas dizem que pode ser útil, que vão usar no futuro. Mas, no fim, nunca usam."

O psiquiatra Alvaro Ancona de Faria, da Unifesp, explica que ter um histórico de dificuldades financeiras pode desencadear o problema. "É um tipo de insegurança. Como se ela precisasse ter gasolina de reserva mesmo com o tanque cheio."

Segundo Hounie, é difícil diferenciar o colecionismo saudável do transtorno. Muitas vezes, além de guardar, a pessoa compra sem controle. Os casos mais extremos aparecem com a Síndrome de Diógenes -uma referência ao filósofo grego que vivia dentro de um barril. Quem tem a síndrome vive no meio do lixo, com pouca atenção à higiene, em um ato de autonegligência.
"Há pessoas ricas assim. É um transtorno difícil de ser tratado porque quem tem não se incomoda", afirma a psiquiatra Bárbara Perdigão, autora de um artigo sobre o assunto publicado na última edição do "Jornal Brasileiro de Psiquiatria".

Muitas vezes, nem terapia resolve. E, quando a casa é limpa, pouco tempo depois já volta a ficar como antes.

Sem Luxo

No fim de 2008, o empresário e escritor americano Dave Bruno, 39, decidiu que ia tentar viver com apenas cem objetos pessoais durante o ano seguinte. Foi o que ele chamou de "100 Thing Challenge" (o desafio das 100 coisas).

O desafio foi vencido sem dificuldades, diz ele. Tanto é que, mesmo depois de terminá-lo, continua vivendo com pouco. Na última contagem, em agosto de 2010, tinha 94 pertences, incluindo as peças de roupa e descontando meias e cuecas. "Eu não acho que há alguma coisa sem a qual eu não poderia viver. Só não me livraria da minha aliança", disse ele à Folha.

A escritora Letícia Braga, 39, decidiu viver com pouco depois de perder o marido e se ver em uma casa cheia de coisas que não usava. Mudou para um apartamento bem menor e deixou para trás móveis, revistas, eletrodomésticos e roupas. A experiência rendeu um livro: "O Prazer de Ficar em Casa" (Casa da Palavra, 80 págs., R$ 14,90).

"Tenho um fogão de quatro bocas e quatro panelas. Tenho só uma gaveta de utensílios, e olha que gosto de cozinhar", diz.

Então Libera

Não é preciso ser tão minimalista, mas para a filosofia chinesa do Feng Shui, já passou da hora de dar destino às coisas inúteis que você insiste em dizer que não são lixo. "Objetos sem utilidade ocupam espaço físico e mental e dificultam a organização das ideias", diz Maria Elena Passanesi, especialista em cosmologia chinesa.

Para a organizadora Ingrid Lisboa, bagunça é sinal de que algo está sobrando. "O descarte é o primeiro passo da organização", afirma. Segundo ela, todo mundo sempre tem algo no fundo do armário que não usa. Mesmo as pessoas mais organizadas e menos consumistas.
"Roupa velha é o que mais guardam. A peça não serve, está fora de moda, e a pessoa pensa que vai voltar a usar um dia. Só se for a uma festa do ridículo."

------------------------

Descarte:

SEM PENSAR
Tudo o que estiver quebrado ou velho demais. Vale para louças amareladas, panelas e potes de plástico sem tampa (ou tampas sem potes de plástico) e roupas velhas

PASSADO
Com alimentos e cosméticos é simples: passou a data de validade, lixo. Mas travesseiros, plásticos e escovas de dentes também vencem. Potes plásticos costumam ter validade de dois anos

NÃO COMPENSA
O conserto pode sair mais caro do que comprar um novo. É o caso de casacos de pele, peças de couro ou de verniz. A maioria dos eletrodomésticos também é descartável, como aparelhos de DVD e liquidificadores

PARADOS
Se você comprou faz um tempo e nunca usou, provavelmente nunca vai usar. Se você já usou, há uma tolerância. Alguns dizem que, para roupas, o prazo é dois anos. Para utensílios de cozinha, um ano

VÁRIOS DO MESMO
Três xampus pela metade, esmaltes da mesma cor e cremes iguais. Separe dois ou três e se livre do resto. Revistas e jornais com matérias não lidas podem ser recortados e guardados. Por que não imprimir receitas em vez de guardar pilhas de revistas que têm só uma receita boa?

PURGATÓRIO
Quando não tiver certeza se vai usar ou não um objeto, separe e deixe em um local visível por um tempo, como se estivesse de castigo. Coloque um limite de tempo (um mês, por exemplo). Se não usar durante esse tempo, é melhor doar

LIBERADOS
As exceções para as regras de uso são os sobretudos, casacos clássicos, agasalhos usados em viagens internacionais ou roupas esportivas (mergulho ou esqui) usadas em viagens. Livros de estimação e utensílios de cozinha temáticos e sazonais como formas de biscoito de Natal também são perdoados

--------------------------------------------------------------------------------
Fontes: Cristina Papazian, Heloisa Lúcia Sundfeld e Ingrid Lisboa, especialistas em organização

O quarto do filho

Olá pessoal!!

Um dos primeiros filmes que assisti nesse comecinho de 2011 foi essa maravilhosa surpresa do cinema italiano, "La Stanza del Figlio", ou "O quarto do filho". Dirigio por Nanni Moretti que tb interpreta Giovanni e dá um show como o pai de Andrea.

Esse filme, de 2001, que recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes, emociona ao mesmo tempo que nos leva a refletir sobre a vida que levamos, como lidar com a rotina, com o luto e com a culpa.

É impossível conter as lágrimas em certos momentos do filme...preparem o lencinho!
Assistam!

Jú M.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Imagem da semana

Olá pessoal..

Com essa imagem de um esportista nas Olímpiadas de Atenas (2004) eu encerro meus posts para esse ano...

Fonte: http://www.life.com/timeline/16231/the-photos-well-remember-2000-2010

Desejo a vocês td de bom em 2011, além de mta tolerância, coragem, bom humor e otimismo!!!

bjs

Moulin Rouge - Your Song

Oi pessoal..

2011 está chegando...mas finalzinho de ano me dá uma nostalgia ao mesmo tempo que me encho de esperança de coisas boas que estão por vir...

Hj posto uma música que me lembra demais minha mãe que não está mais por aqui...ela adorava essa canção e ficava colocando no "repeat" over and over....

Eu tb adoro o Ewan McGregor cantando essa versão da música de Elton John...fico toda arrepiada!!! rs

Enjoy!

bjs


Cecília Meireles - É preciso não esquecer nada


É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

(1962)

sábado, 25 de dezembro de 2010

Feliz Natal

olááááá

neste dia de Natal, quero colocar uma música que gosto mto...ela tem uma segunda versão mais nova, mas eu - pra variar - prefiro a versão original q tem boy george, sting, phil collins, bono, george michael, dentre outros...são os anos 80 minha gente!!!!!!!!!

espero q vcs gostem e o q o espírito natalino permaneça com vocês durante o ano todo de 2011, não só nessa época de festividade...

e eu só posso agradecer a quem vem passar por aqui dar uma checada no meu blog, mesmo q anonimamente...

mto obrigada,
juliana m.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A Rede Social

Oláááá

Ontem assisti "A Rede Social", do diretor David Fincher e o filme é realmente tão bom quanto as pessoas tem comentado. Não sei se é "o" filme de 2010, mas definitivamente merece elogios.

O último filme que eu tinha comentado desse diretor foi "O curioso caso de Benjamin Button", há quase 2 anos atrás que, aliás, eu ADOREI!! Sou meio suspeita pq ad-o-r-o os filmes dele...ele dirigiu, por exemplo: Seven; Zodíaco, Clube da Luta, O Quarto do Pânico, Alien 3 e Vidas em Jogo.

Esse filme não fica atrás, ao contrário...é claro que são filmes com propostas completamente diferentes, mas q fazem com que a gente se envolva com as histórias...

No caso de "A Rede Social", a história é sobre Mark Zuckerberg, o cara (personalidade do ano pela revista Time) que "criou" (coloquei entre aspas, pq reside aí uma das polêmicas do filme) aos 19 anos, o Facebook, um dos sites mais populares e rentosos da atualidade. E quando eu digo rentoso eu tô falando de bilhões, mais de 30 bilhões para ser um pouco mais exata...

Mas isso não vem ao caso, o que mais me impactou com relação ao filme foi a personalidade de Mark Zuckerberg, q não é retratado exatamente como uma figura doce, agradável e generosa...longe disso. O ator Jesse Eisenberg entrega-nos um personagem cheio de defeitos, arrogante, nerd e inteligente ao extremo, antipático, chato, por vezes apático e ainda sim consegue nos manter interessados no filme....

Além disso é interesse ver como Mark se relaciona com as pessoas a sua volta e eu não quero entregar nada do filme, mas ele não é muito querido nem tem mtos amigos não...

Só vendo para tirar suas conclusões....

Ah, destaque para Andrew Garfield (q será o futuro Homem-Aranha) e que interpreta Eduardo Saverin, o sócio de Mark no início do projeto.

Li críticas bacanas sobre o filme....essas foram as que mais gostei:

Vão assistir!!! :)

Bjs

Snoopy + Natal

ok pessoal..

eu já não sou mais criança...sei perfeitamente disso, mas snoopy sempre me remete uma coisa boa, uma inocência e ao mesmo tempo uma sagacidade que eu acho incrível....achei no google algumas imagens que simbolizam bem o clima natalino e as coisas que eu mais gosto no snoopy e amigos..

enjoy!












sábado, 18 de dezembro de 2010

Vik Muniz



Olá pessoal..

Hoje, por acaso, estava mudando de canal e vi um trechinho de uma entrevista que a Angélica (!) fez com o artista Vik Muniz...já estava pra falar dele há tempos, pq volta e meia me deparo com algum site que comenta a respeito dele...

Vocês já ouviram falar desse artista?? Ele tá sendo super elogiado nos Estados Unidos e aqui no Brasil ele ficou conhecido por causa da abertura de Passione (não, eu não assisto novela, fiquei sabendo disso por causa da entrevista).

O cara é fera!!!!Ele utiliza uns matérias bem diferentes para fazer suas obras, geralmente em grande escala: sucata, açúcar, lixo, poeira, diamantes, geléia…

Para ler mais a respeito dele, é só entrar nesses links...no Google tem muiiiiiiiiito mais:




Ah, tem um documentário que se chama "Lixo Extraordinário", onde ele aparece...pareceu bem interessante.


bjsss

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

2010 foi ao ano:


de me colocar em 1º lugar;
*
de namorar e amar muito;
*
de estar com a família e me preocupar com eles;
*
de ter paciência;
*
de viajar;
*
de passear;
*
de ir a shows;
*
de conhecer gente nova;
*
de assumir riscos e fazer novas descobertas;
*
de testar caminhos ainda não percorridos.

Cinema em 2010

Melhores filmes lançados ou exibidos em 2010, na minha opinião:

a origem



toy story 3

tropa de elite 2

ilha do medo



um homem misterioso

enterrado vivo

temple grandin

um parto de viagem

harry potter 7: as relíquias da morte

the runaways

outros destaques:

Guerra ao Terror

Brilho de uma paixão

Amor sem escalas


A single man

The Young Victoria

Criação

coração louco



cerejeiras em flor

domingo, 12 de dezembro de 2010

Duffy - Warwick Avenue



q música gostosa...adoro a Duffy!!!

Enterrado Vivo

Oláááá

Enterrado Vivo, não é um filme de terror, mas faz um bom trabalho ao assustar a gente, viu?!!

Fiquei admirada com a boa atuação do Ryan Reynolds, q eu só tinha visto em comédias românticas e filmes de ação (nada excepcional, infelizmente!). Ele manda mto bem no papel de Paul Conroy, um motorista que se vê preso dentro de um caixão de madeira (!).

Sim, o filme de Rodrigo Cortés se passa INTEIRAMENTE dentro de um caixão. São pouco mais de 90 minutos só nisso. E o Ryan (olha a intimidade) consegue segurar e demonstrar mto bem toda a tensão e claustrofobia que poderiam ser ocasionadas por essa situação perturbadora.

A história é mto simples e o filme não tem lá grandes recursos audiovisuais ou efeitos especiais, mas consegue prender nossa atenção do começo ao fim (q provavelmente não agradará a todos, mas a mim agradou e mto!)

Não vou entregar mais nd do filme!! Quem não se importar com a locação meio restrita (brincadeirinha) e a pouca iluminação, pode acabar se surpreendendo positivamente!


Bjs

sábado, 11 de dezembro de 2010

Jonh Lennon

Olá...

Alguns clips para homenagear esse artista, que mandava mto bem nos Beatles e tb em sua breve carreira solo...

Bjs




Natal

Gente...


Como eu gosto de Natal...adoro a decoração, o clima, as cores, a vontade de presentear todos aqueles que a gente ama.


Nesse sábado andei pela Paulista e tirei algumas fotos...ok, não tem o glamour da iluminação noturna, mas mesmo assim, achei o máximo...


Dêem uma olhada...


Bjsss


sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Contardo Calligaris - A coerência é um valor moral?

Oi pessoal...

Segue um texto para reflexão...pode se concordar ou discordar dele....tirem suas conclusões...

Bjs, Jú

------------------

A coerência é um valor moral?

24 Novembro 2010

No fim de semana retrasado, estive em Olinda, na Fliporto (Feira Literária Internacional de Pernambuco). No sábado, Benjamin Moser, que escreveu uma linda biografia de Clarice Lispector ("Clarice,", Cosac Naify), lembrou que, na famosa entrevista concedida à TV Cultura em 1977, a escritora afirmou que não fizera concessões, não que soubesse.

Moser acrescentou imediatamente que ele não poderia dizer o mesmo. E eis que o público se manifestou com um aplauso caloroso.

Talvez as palmas de admiração fossem pela suposta coerência adamantina de Clarice, que nunca teria feito concessões na vida. Talvez elas se destinassem a Benjamin Moser pela admissão sincera de que ele (como todos nós) não poderia dizer o mesmo que disse Clarice.

Tanto faz. Nos dois casos, o pressuposto é o mesmo. Que as palmas fossem pela força de caráter de Clarice ou pela honestidade de Moser ao reconhecer sua própria fraqueza, de qualquer forma, não fazer concessões parecia ser, para os presentes, uma marca de excelência moral.

A pergunta surgiu em mim na hora: será que é mesmo? Posso respeitar a tenacidade corajosa de quem se mantém fiel a suas convicções, mas no que ela difere da teima de quem se esconde atrás dessa fidelidade porque não sabe negociar com quem pensa diferente e com o emaranhado das circunstâncias que mudam? Aplicar princípios e nunca se afastar deles é uma prova de coragem? Ou é a covardice de quem evita se sujar com as nuances da vida concreta?

Como muitos outros, se não como todo mundo, cresci pensando que não fazer concessões é uma coisa boa.Fui criado na ideia de que há valores não negociáveis e mais importantes do que a própria vida (dos outros e da gente). Talvez por isso me impressionasse a intransigência dos mártires cristãos (embora eu tivesse uma certa simpatia envergonhada por Pedro renegando Jesus para evitar ser reconhecido e preso).

Durante anos admirei os bolcheviques por eles serem homens de ferro (a expressão é de Maiakóvski, nada a ver com "Iron Man") e desprezei Karl Kautsky, que Lênin estigmatizou para sempre como "o renegado Kautsky", por ele ter mudado de opinião sobre a Primeira Guerra, sobre a revolução proletária, sobre o bolchevismo etc.

Vingança da história: Lênin se tornou quase ilegível, mas a obra principal de Kautsky, que acaba de ser traduzida, "A Origem do Cristianismo" (Civilização Brasileira), continua crucial.

Mas voltemos ao assunto. Hoje, estou mais para Kautsky do que para bolchevique; até porque descobri, desde então, que Mussolini se vangloriava gritando: "Eu me quebro, mas não me dobro". Ele se quebrou mesmo, enquanto eu me dobro e posso renegar ideias minhas que pareçam ser, de repente, inadequadas ao momento (dos outros, do mundo e meu).

Olhando para trás, descubro (com certo orgulho) que, ao longo da vida, fiz inúmeras concessões, inclusive na hora de escolhas fundamentais. Poucas vezes lamentei não ter sido coerente. Mas muitas vezes lamento não ter sabido fazer as concessões necessárias, por exemplo, na hora de ajustar meu desejo ao desejo de pessoas que amava e de quem, portanto, tive que me afastar.

Alguém dirá: espere aí, então a fidelidade a princípios e valores não é uma condição da moralidade?

Estou lendo (vorazmente) "O Ponto de Vista do Outro", de Jurandir Freire Costa (Garamond). O livro é, no mínimo, uma demonstração de que a forma moderna da moral não é o princípio, mas o dilema. E, no dilema, o que importa não é a fidelidade intransigente a valores estabelecidos; no dilema, o que importa é, ao contrário, nossa capacidade de transigir com as situações concretas e com os outros concretos.

A coerência é uma virtude só para quem se orienta por princípios. Para o indivíduo moral, que se orienta (e desorienta) por dilemas, a coerência não é uma virtude, ao contrário, é uma fuga (um tanto covarde) da complexidade concreta. Oscar Wilde, que é um grande fustigador de nossas falsas certezas morais, disse que "a coerência é o último refúgio de quem tem pouca fantasia" e, eu acrescentaria, de quem tem pouca coragem.

Resta absolver Clarice. Aquela frase da entrevista era, provavelmente, apenas uma reverência retórica a um lugar-comum de nosso moralismo trivial.

Comercial poderoso

esse é um comercial q o profº passou em classe...chama-se "Atrevete...cambia" ou "Ouse...Mude". Esqueci de postar aqui, mas encaminhei para várias pesssoas, pq o achei bastante significativo...